A investigação do NYT para descobrir quem é Satoshi Nakamoto, o criador do Bitcoin
Repórter revisita e-mails, listas Cypherpunk e pistas linguísticas e técnicas para apontar o criptógrafo britânico como principal suspeito de ser o criador do bitcoin The post A investigação do NYT para descobrir quem é Satoshi Nakamoto, o criador do Bitcoin appeared first on InfoMoney.

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Numa noite do outono de 2024, minha esposa e eu estávamos presos no trânsito na Long Island Expressway quando, cansada de ouvir a estação de jazz‑funk que eu costumava colocar nas nossas viagens, ela mudou para um podcast.
Era o “Hard Fork”, o programa de tecnologia do New York Times, e os apresentadores discutiam um novo documentário da HBO que afirmava ter desmascarado o inventor pseudônimo do bitcoin, Satoshi Nakamoto.
Fiquei vidrado na hora. Eu sempre considerei a questão da verdadeira identidade de Satoshi um dos grandes enigmas da nossa época e já tinha mexido nesse assunto antes, sem sucesso. Dois anos antes, cheguei até a passar alguns meses pesquisando um livro sobre o tema. Mas logo percebi que estava fora da minha profundidade e, a contragosto, desisti.
Ao ouvir que outra pessoa talvez finalmente tivesse identificado a figura sombria que revolucionara as finanças, criara uma indústria de 2,4 trilhões de dólares e acumulado, num único ato de genialidade estonteante, uma das maiores fortunas do mundo, senti uma mistura de admiração e inveja. Eu mal podia esperar para ver o filme. Assim que chegamos em casa naquela noite, entrei no app da HBO Max e dei play.
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No fim das contas, achei a conclusão de “Money Electric: The Bitcoin Mystery” pouco convincente: a HBO apontou um desenvolvedor de software canadense com base em evidências que pareciam muito frágeis. Mas, enquanto assistia ao que era, de resto, uma incursão divertida pelo mundo das criptomoedas, uma cena chamou minha atenção.
Adam Back, um criptógrafo britânico e figura de ponta no movimento do bitcoin, estava sentado num banco de parque em Riga, na Letônia, com a camisa para fora da calça sob um casaco marrom. O cineasta foi recitando, de forma casual, os nomes de vários suspeitos de serem Satoshi. Ao ouvir o próprio nome, Back ficou tenso, negou veementemente ser Satoshi e pediu que a conversa ficasse em off.
Tendo lidado, ao longo da vida, com minha cota de mentirosos e desenvolvido certa habilidade em perceber seus sinais, o comportamento de Back — seus olhos inquietos, a risada forçada, o movimento brusco da mão esquerda — me pareceu suspeito. Quando começaram os créditos, eu já tinha voltado várias vezes àquela sequência na televisão.
Enquanto refletia sobre a reação de Back, outra ideia me ocorreu. Um impostor australiano havia sido processado por afirmar falsamente que era Satoshi. E se as provas apresentadas naquele processo, realizado em Londres poucos meses antes, pudessem me ajudar a desvendar o mistério?
Como qualquer pessoa familiarizada com o folclore do bitcoin dirá, Satoshi era mestre na arte de manter o anonimato na internet, deixando pouquíssimas — se é que deixava alguma — pegadas digitais.
Mas Satoshi deixou para trás um corpus de textos [coleção vasta e estruturada de textos e documentos], incluindo um white paper de nove páginas descrevendo sua invenção e diversas postagens no fórum Bitcointalk, um quadro de mensagens on‑line em que usuários se reuniam para discutir o software, a economia e a filosofia da moeda digital. E esse corpus, descobri, tinha se expandido significativamente durante o processo civil contra o impostor, quando Martti Malmi, um programador finlandês que colaborou com Satoshi nos primeiros dias do bitcoin, divulgou centenas de e‑mails trocados entre os dois. E‑mails de Satoshi para outros pioneiros do bitcoin já haviam vindo à tona antes, mas nenhum chegava perto, em volume, do que Malmi revelou. Se Satoshi algum dia fosse encontrado, eu estava convencido de que a chave estaria em algum lugar nesses textos.
Por outro lado, outros deviam ter trilhado esse caminho antes de mim. Jornalistas, acadêmicos e detetives de internet tentam identificar Satoshi há 16 anos. Nesse período, mais de 100 nomes já foram sugeridos, incluindo os de um estudante irlandês de criptografia, um engenheiro nipo‑americano desempregado, um cérebro do crime sul‑africano e o matemático retratado no filme “Uma Mente Brilhante”.
As teorias mais sedutoras se apoiavam em coincidências alinhadas ao pouco que se sabia sobre Satoshi: um estilo particular de escrita de código, um histórico profissional misterioso, domínio de conceitos técnicos cruciais do bitcoin, uma visão anti‑governo.
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